A BrasilAgro registrou prejuízo líquido de R$ 14,3 milhões no terceiro trimestre do ano-safra 2025/26, encerrado em 31 de março, ante perda de R$ 1,1 milhão em igual período do ciclo anterior. A receita líquida total caiu 26%, para R$ 167,0 milhões, enquanto o Ebitda (lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização) ajustado total ficou negativo em R$ 28,6 milhões, ante resultado também negativo de R$ 5,1 milhões um ano antes.
O desempenho refletiu menor receita operacional, menor ritmo de comercialização de soja no trimestre e pressão de juros sobre o resultado financeiro. Segundo o diretor financeiro e de relações com investidores da BrasilAgro, Gustavo Lopez, a decisão de segurar parte das vendas do grão ajudou a explicar a menor receita no período.
A receita líquida operacional recuou 17% no trimestre, para R$ 141,8 milhões. A movimentação de valor justo do ativo biológico, que mede quanto valem as lavouras ainda no campo ao preço de mercado do período, caiu 61%, para R$ 21,2 milhões. No acumulado de nove meses, a companhia associou a menor contribuição dessa linha à redução dos preços usados na marcação a valor justo, com destaque para a soja. A margem Ebitda ajustada total ficou negativa em 17%, ante margem negativa de 2% no 3ºtri25.
A soja, principal cultura da companhia no trimestre, teve receita líquida de R$ 95,8 milhões, queda de 8% ante igual período do ciclo anterior. O volume faturado também recuou 8%, para 55,4 mil toneladas, enquanto o preço unitário ficou praticamente estável, em R$ 1.728 por tonelada. Apesar da menor receita, a margem bruta da cultura subiu para 4%, ante 2% no 3ºtri 2025/26, com redução de 2% no custo por tonelada.
No milho, a receita líquida cresceu para R$ 6,6 milhões, ante R$ 355 mil um ano antes. O volume faturado passou de 377 toneladas para 7,1 mil toneladas. A margem bruta da cultura ficou positiva em 22%, ante margem negativa de 85% no 3ºtri 2024/25, refletindo maior volume vendido e queda do custo unitário.
O algodão pluma pressionou o resultado. A receita líquida da cultura caiu 43%, para R$ 21,7 milhões, com recuo de 24% no volume faturado e queda de 25% no preço unitário. A margem bruta ficou negativa em 52%, ante margem positiva de 26% um ano antes. No acumulado de nove meses, a companhia atribuiu a piora à queda do preço unitário, influenciada pela liquidação de volumes com qualidade inferior, e ao aumento do custo unitário.
A cana-de-açúcar teve receita líquida de R$ 7,3 milhões no trimestre, queda de 32% na comparação anual. No acumulado de nove meses, a receita da cultura caiu 31%, para R$ 164,1 milhões, com redução de 28% na quantidade faturada. Lopez afirmou que a cana foi o principal fator negativo do resultado acumulado. “O grande vilão desse resultado negativo acumulado é a cana-de-açúcar”, disse.
O resultado financeiro seguiu pressionado pelo custo da dívida. As despesas com juros somaram R$ 25,2 milhões no trimestre, alta de 20% ante o 3ºtri 2024/25. No acumulado dos nove meses, essa linha cresceu 18%, para R$ 69,4 milhões. Segundo a companhia, o aumento refletiu o maior saldo médio de endividamento e a elevação da taxa média do CDI, que passou de 8,47% para 11,03% ao ano.
Nos nove primeiros meses do ano-safra 2025/26, a BrasilAgro acumulou prejuízo líquido de R$ 76,1 milhões, revertendo lucro de R$ 76,7 milhões em igual intervalo do ciclo anterior. A receita líquida total caiu 27%, para R$ 637,3 milhões, e o Ebitda ajustado total recuou 78%, para R$ 42,8 milhões. A comparação também foi afetada pela menor receita com venda de fazendas: nos 9 meses de 2025/26 essa linha somou R$ 4,1 milhões, ante R$ 129,3 milhões nos 9 meses do ciclo anterior, quando houve conclusão de etapa da venda da Fazenda Alto Taquari.
Companhia segura venda de soja à espera de frete menor, mas terá de entregar até junho
A BrasilAgro reduziu o ritmo de comercialização de soja no terceiro trimestre do ano-safra 2025/26 à espera de uma acomodação do frete, mas terá de acelerar entregas até o fim de junho para cumprir contratos já firmados. Segundo o diretor financeiro e de relações com investidores da companhia, Gustavo Lopez, a empresa vendeu cerca de 50 mil toneladas no trimestre, abaixo das 70 mil toneladas que costuma comercializar nesse período. “Temos contratos já comprometidos e, até 30 de junho, vamos ter de entregar entre 70 mil e 90 mil toneladas”, disse.
Segundo ele, a companhia tem cerca de 140 mil toneladas de soja a vender no semestre e busca alternativas para reduzir o impacto logístico, incluindo operações que combinem o envio de soja ao porto com o retorno de fertilizantes. “É uma gestão de dia a dia, semana a semana, para tentar reduzir esse efeito do frete”, afirmou.
Segundo o executivo, a decisão de carregar parte da soja para o quarto trimestre pesou no resultado, porque os custos fixos, comerciais e administrativos continuaram correndo enquanto o volume realizado ficou abaixo do padrão histórico. Lopez associou o prejuízo de R$ 14,3 milhões no 3ºtri 2025/26 ao menor volume vendido no período, aos custos fixos e comerciais e à pressão de juros sobre o capital de giro. “Quando não há volume de venda realizado, os custos continuam e isso gera um resultado neutro ou um pouco negativo”, disse.
Apesar da pressão no mercado físico, a companhia vinha com posição relevante protegida. Segundo o balanço, 82% da soja da safra 2025/26 estava fixada em 31 de março a preço médio de US$ 10,85 por bushel, e cerca de 75% da exposição cambial estava travada a R$ 5,89 por dólar. Lopez disse que a combinação de vendas físicas, derivativos, câmbio e Bolsa de Chicago resultava em preço próximo de R$ 117 por saca para a companhia, considerando todas as fazendas.
Esse nível compara-se aos valores mais baixos observados no mercado spot em algumas regiões. “O mercado hoje está precificando algo perto de R$ 113 por saca, dependendo da região”, disse Lopez. “No Matopiba, em áreas mais próximas dos portos e com menor pressão de frete, há preços de R$ 118 a R$ 120 por saca. Em Mato Grosso, na região do Xingu, o mercado está entre R$ 98 e R$ 100 por saca”, afirmou.
O executivo atribuiu a pressão sobre os preços internos à valorização do real, ao volume elevado de oferta disponível, à pressão sobre os prêmios de exportação e ao frete. Segundo ele, a alta do diesel após o início da guerra também elevou os custos logísticos, penalizando especialmente regiões mais distantes dos portos.
Em termos operacionais, Lopez disse que a colheita de soja ficou próxima das estimativas da companhia. O Paraguai, que havia enfrentado problemas de distribuição de chuvas nas duas safras anteriores, deve ter um bom ano após ajustes na janela de plantio. No Matopiba, as produtividades ficaram acima do previsto. Em Mato Grosso, porém, cerca de 25% da área inicial foi afetada por um intervalo sem chuvas no momento de estabelecimento do plantio, o que comprometeu o estande de plantas e puxou a produtividade dessa parcela para baixo das médias históricas.
No balanço, a receita líquida da soja somou R$ 95,8 milhões no 3ºtri 2025/26, queda de 8% ante igual período do ciclo anterior, com volume faturado de 55,4 mil toneladas e preço médio de R$ 1.728 por tonelada. No acumulado dos nove meses, a receita da cultura cresceu 3%, para R$ 277,4 milhões, com volume de 146,6 mil toneladas e margem bruta de 19%, ante 17% nos 9 meses de 2024/25. A melhora de margem refletiu queda de 4% no custo unitário, que mais do que compensou o leve recuo de 2% no preço médio.
Para a safra 2025/26, a BrasilAgro reduziu a projeção de produção de soja em 2% ante a estimativa inicial, para 246 mil toneladas, com área de 77.971 hectares. Lopez disse ainda que a companhia adotará postura mais defensiva no planejamento da próxima safra, diante de juros elevados, custos logísticos, fertilizantes e expectativa de ocorrência de La Niña. Segundo ele, a empresa deve reduzir exposição em áreas de transformação e priorizar regiões com histórico mais estável de produtividade.