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Vale decide permanência de Bartolomeo até terça-feira (30)

Vale decide até terça-feira se mantém Eduardo Bartolomeu na presidência, apesar da pressão do governo pela indicação de Guido Mantega para o cargo

No total de 2023, a Vale somou US$ 7,983 bilhões em lucro

A permanência de Eduardo Bartolomeo na presidência da Vale deve ser decidida até terça-feira, 30, com a convocação de uma reunião extraordinária do conselho de administração da mineradora (CA), segundo fonte familiarizada com o processo. Nesse encontro será analisado, a partir de um amplo estudo, o desempenho do executivo frente à mineradora. Nos últimos dias, intensificaram-se os boatos de que o governo estaria tentando alçar o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega à posição.

Antes da convocação da reunião extraordinária do conselho, porém, haverá mais um passo no desenlace da saga na sucessão da Vale, com a análise, pelo Comitê de Pessoas e Remuneração, desse estudo sobre a gestão Bartolomeo, elaborado pela firma de headhunter Vila Nova Partners, de São Paulo. O documento será entregue amanhã, 25, e deverá ser debatido num encontro do comitê, que é um dos colegiados de assessoramento do conselho, composto por 4 dos 13 integrantes do CA.

Segundo fonte, a consultoria realizou várias rodadas de conversas com executivos e os próprios conselheiros sobre a efetividade na execução, por parte de Bartolomeo, das estratégias determinadas para a companhia. Também se debruçou sobre outros indicadores de desempenho da Vale. Procurada pelo Broadcast, a firma não quis se manifestar.

O sócio fundador da Vila Nova Partners, Fernando Carneiro, tem 23 anos de experiência como headhunter e sua principal área é a sucessão de CEOs. O Broadcast apurou que Carneiro já fez outros trabalhos para a Vale nos últimos 20 anos e tem conhecimento profundo dos processos e entranhas da companhia. Conhece há vários anos Eduardo Bartolomeo, que, antes de se tornar CEO, foi diretor executivo da Vale entre 2004 e 2012 e entre 2018 e 2019.

Digestão e oposição

Com o estudo da Vila Nova Partners digerido, o Comitê de Pessoas deve levar uma recomendação ao conselho de administração, que tem até o fim do mês para anunciar sua decisão soberana. Como na quarta-feira já há uma reunião ordinária marcada, que não tem esse tema na pauta, seria chamada o encontro extra até terça-feira.

O Comitê de Pessoas é formado por dois conselheiros vinculados a acionistas e dois independentes. Os indicados são o executivo Shunji Komai, do conglomerado japonês Mitsui, segundo maior acionista, com 6,3% do capital, e João Fukunaga, presidente da Previ, principal acionista individual da Vale (10% em participação direta e indireta). De acordo com informações de bastidores, a Previ é crítica à gestão de Bartolomeo. A entidade, porém, não comenta o assunto. O Mitsui tampouco se manifestou.

Os conselheiros independentes no comitê são Manuel Lino Silva de Souza Oliveira, Ollie, e Luiz Henrique Guimarães, ex-CEO da Cosan, cotado para o posto de CEO no lugar de Bartolomeo, conforme interlocutores. Ollie é “lead independent director” (LID), que representa os conselheiros independentes.

Guimarães foi indicado por Rubens Ometto, dono da Cosan e de 4,9% do capital da Vale. É considerado “independente” porque a participação do empresário na mineradora não chega a 5%, nível a partir do qual os acionistas são nomeados “de referência”. Seu nome surgiu, há meses, como possível sucessor de Bartolomeo. O fato de ter deixado o cargo de CEO da Cosan alimentou ainda mais os rumores.

Decisão soberana

Os 13 membros do conselho, inclusive os quatro que pertencem ao Comitê de Pessoas, são livres para votar pela aprovação ou não da gestão de Bartolomeo, seja em linha com a recomendação ou de maneira contrária. “Uma decisão dessa magnitude (troca de comando da empresa) passará por todo o conselho, por mais que o Comitê de Pessoas tome um posicionamento”, diz uma fonte.

A percepção de fontes é que a avaliação de Bartolomeo tem melhorado tanto para o público interno quanto para o externo. Além de ele aparecer mais e ter mostrado com maior ênfase a importância da empresa para o País, houve maior articulação política em torno de sua gestão, de acordo com pessoa familiar à empresa.

Porém, afirma outra fonte, o posicionamento de cada conselheiro – e a pressão que o governo tem feito sobre os acionistas que representam – só será conhecida na reunião extraordinária.

“A governança da empresa é muito diferente da época do Roger (Agnelli, ex-presidente da Vale, destituído por pressão da gestão Dilma, em 2011), mas toda mineradora depende de sua relação com o governo, seja por meio de concessões logísticas ou dos licenciamentos ambientais. Outros acionistas também dependem dessa interlocução”, diz a fonte. “Seria necessário desmontar todas as normas de governança que estão em vigor, o que numa corporation teria uma repercussão internacional muito grande.”

Em entrevista exclusiva ao Broadcast, no início de dezembro, Eduardo Bartolomeo reforçou que deseja continuar no posto de comandante da mineradora.

Mas, caso o conselho decida que a temporada do executivo na Vale deva se encerrar, uma outra firma de headhunter – essa obrigatoriamente internacional – será contratada a fim de preparar uma lista tríplice com recomendações de executivos para preencher a vaga de CEO.

No conselho

No maremoto de hipóteses que a sucessão da Vale proporcionou na semana passada, foi aventado que, se Guimarães entrasse nessa lista tríplice e se tornasse CEO ou fosse para um alto cargo executivo, abriria uma vaga no conselho de administração. Isso serviria para acomodar Mantega. Em meio aos rumores, o ministro Alexandre Silveira, de Minas e Energia, elogiou o ex-ministro – o que derrubou as ações da mineradora.

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Governo manobra nos bastidores pela indicação de Guido Mantega à presidência da Vale (Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)

Porém, Mantega teria de ser aprovado pelos outros conselheiros – sendo que oito são independentes. Ele também poderia ocupar uma das duas vagas da Previ, que é ligada ao governo, no conselho. Além de Fukunaga, Daniel Stieler, ex-presidente da entidade, foi indicado e é presidente do colegiado. Um dos dois teria de renunciar ao mandato, que vai até abril de 2025, e a ideia não agrada a liderança da Previ, de acordo com fontes ouvidas pelo Broadcast.

Além disso, para indicar o ex-ministro a um assento no colegiado da Vale, seria preciso contornar as regras da própria Previ, que preveem um processo seletivo para a escolha de conselheiros das empresas nas quais investe. Segundo as fontes ouvidas, a primeira etapa, de inscrição dos interessados em fazer parte dos colegiados, foi encerrada na sexta-feira, 19, sem o nome de Mantega.

As ações da Vale não ficaram imunes aos efeitos da boataria. O ruído foi o principal fator de pressão sobre os papéis da companhia, que, entre segunda e sexta-feira, recuaram 5%. Procurada, a Vale não respondeu ao pedido de entrevista.

 

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